quarta-feira, 20 de abril de 2011

Grito na conversa

Sabem aquelas conversas que se fazem com os amigos. Aquelas que já não custam, que se fazem sem querer, aquelas em que o vazio dos silêncios já não incomoda tal é o à-vontade. São um oásis de conforto no barulho ensurdecedor do mundo. São um cantinho de casa em qualquer lugar. E quando nessas conversas tens confidências que gostarias de fazer mas tens receio de ser mal entendido. Coisas que gostarias de partilhar mas tens medo que possam causar demasiado impacto no ouvinte ou que a reacção não seja em conformidade com a importância que aquilo tem para ti. É como ter um grito preso na garganta que no entanto não te impede de falar, de acrescentar banalidades e espirituosidades até. Só que lá está, nem é um berro, nem é aquele grito contido que se transforma em silêncio, é um grito murmurante, um grito falante, um grito de conversa. A mente viaja e contorse-se em agonia, medo e desespero enquanto a língua continua o seu trabalho de coloquialidade. A isso chamo um grito na conversa. E lá por ter barulho de fundo não o torna menos agudo e ensurdecedor.

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